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Uncanny

é um projecto onde poderemos percorrer várias trajectórias que se vão relacionando entre si. Trajectórias essas que tanto podem ser de ordem do simbólico, como de ordem prática. Será neste caminho, a desvendar, que poderá assentar uma ambiguidade que está bem expressa nas imagens que vão desfilando à frente do observador.  A relação das questões do controlo e a configuração da paisagem e o modo como estas se interrelacionam entre o homem e a suas memórias, bem como entre o humano nos seus vários níveis de consciência, e o logos em que ele habita. Tudo isto poderá significar uma maneira diferente e muito particular de nos posicionarmos na paisagem. Como seres vivenciais, ou como seres  compostos por camadas metafísicas. Por outro lado, a relação das imagens com a nossa retina poderá revelar-nos uma insistente interpelação entre o lado físico (olhos) e o lado mental (cérebro). Como contrariar este fenómeno!? Ver, ver e ver –  Pensar – Tornar a ver – Olhar – Não ver, não ver e não Ver. Repensar, perspectivar e tornar a olhar, num exercício infinito de tentar compreender e relacionar as várias realidades, quase imperceptíveis e tão presentes na forma como, de facto, recepcionamos as imagens, no alto deste século XXI.

Será o arquivo mental da nossa memória profunda e ao mesmo tempo tão acessível, o motor que nos impulsionará a realizar viagens aos nossos mais recônditos recalcamentos. Estádios inconscientes consolidados pela acumulação de experiências que nos moldará de forma a permitir-nos ver e sentir a novidade em cada dia. Porque, tal como as mandalas do Oriente, cada dia é circular, e as fotos que vamos interiorizando nestes lugares comuns de salas de exposição obrigam-nos a desorientar-nos para nos reencontrarmos, à vez. Uma e outra vez, até à libertação desenfreada das emoções, conseguida, total ou em parte, por intermédio da contemplação do que nos é mostrado pelos olhos do artista, pelo instrumento da sua arte. Numa atitude provocadora que reflecte o que nos é estranha e ameaçadoramente familiar.

António Pedro Mendes

Ajuda, 29 de Maio de 2018

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